A patente do Ozempic acabou. Mas você sabia que o nome continua protegido?

Imagine criar um produto que se torna conhecido no mundo inteiro. Seu nome passa a ser reconhecido imediatamente pelos consumidores, suas vendas alcançam cifras bilionárias e, durante anos, seus concorrentes não podem explorar livremente a tecnologia que você desenvolveu. Agora imagine que essa exclusividade chega ao fim. Foi exatamente isso que aconteceu com a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, um dos medicamentos mais conhecidos dos últimos anos.

Em março de 2026, expirou no Brasil a patente da semaglutida, princípio ativo utilizado no Ozempic. Com o encerramento dessa proteção, outros laboratórios passaram a ter a possibilidade de comercializar medicamentos com a mesma substância, desde que cumprissem as exigências regulatórias. E o impacto já começou a aparecer!

Em novembro, a Novo Nordisk reconheceu que estava perdendo participação no mercado brasileiro diante da concorrência de alternativas mais baratas. Mas existe um detalhe nessa história que muita gente desconhece: o fim da patente não significa o fim da proteção da marca Ozempic. Vamos entender a diferença?

A patente protege uma invenção, como uma tecnologia ou solução técnica que preencha os requisitos legais. Sua principal característica é a exclusividade temporária, concedida para que o titular possa explorar economicamente aquela invenção durante determinado período. A marca, por outro lado, tem uma função completamente diferente. Ela identifica a origem empresarial de um produto ou serviço e permite que o consumidor o diferencie dos concorrentes.

Por isso, embora outros laboratórios possam comercializar medicamentos à base de semaglutida após o fim da exclusividade patentária, eles não podem simplesmente utilizar o nome Ozempic para identificar seus próprios produtos. E aqui está a parte mais interessante dessa história. Mesmo depois de perder a exclusividade sobre a tecnologia, a Novo Nordisk continua possuindo um ativo extremamente valioso: uma marca reconhecida mundialmente. Isso significa que, enquanto os concorrentes disputam espaço no mercado, o nome Ozempic permanece associado à reputação, à trajetória e à identidade comercial construída pela empresa.

Aliás, essa é uma das razões pelas quais a proteção de uma marca pode ser tão estratégica. No Brasil, seu registro pode ser renovado sucessivamente a cada dez anos, permitindo que a proteção continue por tempo indeterminado, desde que sejam observadas as exigências legais. Percebe como estamos falando de duas proteções que cumprem funções diferentes, mas que podem se complementar?

A patente protege a inovação por um período determinado. A marca ajuda a preservar a identidade comercial do negócio ao longo do tempo e essa reflexão não vale apenas para a indústria farmacêutica.

Pense em uma empresa que desenvolve um produto inovador, investe em pesquisa, conquista consumidores e constrói uma reputação sólida. Se ela concentra toda a sua estratégia de proteção na tecnologia e negligencia sua marca, pode descobrir tarde demais que deixou de proteger um dos ativos mais importantes do negócio.

O caso do Ozempic nos lembra de algo fundamental: uma invenção pode perder sua exclusividade, mas uma marca bem construída pode continuar gerando valor por muitos anos.

Afinal, proteger uma empresa não significa apenas cuidar daquilo que ela criou. Significa também proteger a identidade pela qual o mercado aprendeu a reconhecê-la.

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Anvisa divulga atualização sobre pedidos de registro de semaglutida. Brasília, DF: Anvisa, 20 mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-divulga-atualizacao-sobre-pedidos-de-registro-de-semaglutida. Acesso em: 5 nov. 2026.

REUTERS. Indian drugmaker Dr Reddy’s gets Brazil regulator nod to sell generic Ozempic. Reuters, 5 nov. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/indian-drugmaker-dr-reddys-gets-brazil-regulator-nod-sell-generic-ozempic-2026-11-05/. Acesso em: 5 nov. 2026.

REUTERS. Novo loses share in Brazil to cheaper generics, holds up in Canada, India. Reuters, 4 nov. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/novo-loses-share-brazil-cheaper-generics-holds-up-canada-india-2026-11-04/. Acesso em: 5 nov. 2026.