Jason Isbell, David Lowery e outros músicos processam a Suno: e se a IA começar a copiar aquilo que diferencia a sua empresa?

Toda empresa tenta construir alguma coisa que faça o cliente reconhecê-la.

Pode ser o nome, a forma de apresentar um produto, a comunicação, uma identidade visual ou até o próprio empresário, quando sua imagem está diretamente ligada ao negócio.

Construir esse reconhecimento leva tempo. A inteligência artificial trouxe uma pergunta nova: o que acontece quando uma tecnologia consegue reproduzir parte dessa identidade em segundos?

No fim de agosto, os músicos Jason Isbell, David Lowery, Guy Forsyth e Eduardo Calle entraram com uma ação nos Estados Unidos contra a Suno, plataforma de geração de músicas por inteligência artificial. Eles alegam que a tecnologia estaria explorando nomes, vozes e outras características associadas a artistas para gerar músicas que remetem a eles. O processo está no início e essas alegações ainda não foram julgadas.

O ponto interessante para quem tem uma empresa é que a discussão vai além da cópia de uma música.

Imagine uma empresa que passou anos investindo para ter uma comunicação reconhecível. Ou uma empresária que aparece diariamente nas redes e se tornou o rosto do próprio negócio. Pense ainda em cursos, franquias, escritórios, clínicas e marcas digitais em que a forma de comunicar também ajuda a diferenciar aquela empresa dos concorrentes.

Nem tudo isso recebe a mesma proteção jurídica.

Uma marca registrada possui uma proteção. Fotografias, vídeos, textos e outros conteúdos podem ter proteção autoral. Nome, imagem e voz envolvem outros direitos. E o simples fato de uma empresa possuir um “estilo” próprio não significa que possa impedir qualquer pessoa de fazer algo parecido.

É justamente por isso que a inteligência artificial torna a discussão mais complexa.

Uma coisa é utilizar referências comuns de determinado mercado. Outra é usar elementos ligados a uma empresa ou pessoa específica para produzir algo que aproveite comercialmente o reconhecimento que ela levou anos para construir.

Há também um cuidado contratual que começa a fazer diferença.

Se uma empresa contrata alguém para produzir vídeos, ela pode usar esse material para treinar uma IA? Se licencia a imagem de uma pessoa para uma campanha, pode criar um avatar dela? Se contrata uma voz para determinado projeto, pode depois reproduzi-la artificialmente em novos conteúdos?

Essas permissões não deveriam ser presumidas.

O processo contra a Suno ainda está longe de uma conclusão, mas traz uma discussão que tende a chegar cada vez mais perto das empresas.

Durante anos, proteger um negócio significou pensar em marca, contratos, conteúdo, tecnologia e segredo empresarial.

A inteligência artificial acrescentou uma nova preocupação: entender quais elementos realmente diferenciam sua empresa e quais deles podem ser juridicamente protegidos antes que outra pessoa (ou uma máquina) comece a explorá-los.